mimimi

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Faz tempo que não dou as caras por aqui com alguma coisa que não se restrinja a devaneios poéticos. Mas lendo outras coisas que escancaram a doença da geração da qual faço parte, não consegui deixar de manifestar opinião sobre o assunto. É puramente perceptível o hedonismo consumido e vomitado por grande maioria de pessoas que se recusam em ponderar a mínima coesão das suas reflexões e inflexões. A busca doentia por felicidade e a demonização do sofrimento são base para as estruturas da atual hipersensibilidade social e sua adjunta incompetência para debates ideológicos.

Aos que libertinam suas práticas pessoais e tornam esse aparente "oásis" um ambiente sagrado, por exemplo, a simples discordância de ideias é altamente ofensiva. Acreditar que exista uma conduta moral mais adequada e incentivar esse posicionamento é motivo para ser amplamente rechaçado e coibido pelos hipersensíveis do século.

Crítica seria um elogio à toda prática de uma militância hedonista acéfala e preguiçosa de ofendidos que há algum tempo tem ganhado espaço. Digo isso com propriedade, pois dessa hipersensibilidade já bebi e já estive psicologicamente abalado por palavras ditas sobre mim e sobre o que acredito que não correspondiam a fatos. Pura imaturidade.

O berço de todos esses acontecimentos infantis é uma generalizada falta de profundidade em tudo, algo tão normal nos dias de hoje. Se hoje mal lemos uma matéria ou um livro completo, qual é a probabilidade do conhecimento acerca de nós mesmos ser amplo ou correto? Principalmente se passamos a vida nos dedicando mais a satisfação própria do que ao conhecimento próprio - a probabilidade desse conhecimento é mínima ou nenhuma.

E se não me conheço muito bem, fico sensível a qualquer definição que fazem de mim e a torno primariamente passiva de ser verdadeira. E ai daquelas definições que contradigam o pobre apanhado que construí na paupérrima definição que outorguei a mim como verdadeira. Isso sensivelmente me agride assustadoramente.

Em outras palavras, se ofendem aqueles que ouvem de si coisas que desagradem seus ouvidos e destoem do posicionamento pessoal pobre em que orbitam suas vidas. Mas vou continuar usando a primeira pessoa, pra não te ofender:

Logo, se não me conheço, me ofendo com possíveis verdades e com possíveis mentiras. Logo, se me conheço, sei o que são possíveis verdades e o que são possíveis mentiras, e em ambos os casos é impossível me sentir ofendido, porque de fato são verdades ou mentiras.

Ainda em outras palavras, só me sinto ofendido com algo se não sei quem de fato eu sou. E a geração de hoje (que sabe um pouco de tudo, mas desconhece ainda muito de tudo) não sabe nada de si, e se ofendem ligeiramente por qualquer coisa.

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E na sensata impotência de saber quem de fato eu sou por meus próprios - e falhos - meios, recorro a quem minunciosamente deu e dá o alívio amargo para todas as questões que já tive. Me despreocupo com a felicidade, me lanço irrestritamente à verdade, enfaticamente indefiro sobre o possível desconforto que inevitavelmente virá, para que minimamente eu consiga entender um pouco mais do Outro e então, por graça, de mim.

Menosprezo a mim mesmo, as minhas débeis e frágeis aspirações, para que de fato eu encontre algo que me sustente em todo o chaos de uma sociedade manobrada por qualquer coisa, manobrada por si mesmos.

E O tenho achado.

coragem

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Para ser cristão, digo do autêntico, você irrevogavelmente precisa ser corajoso. Afinal, a fé é o nível avançado da mais alta convicção. Não é suposição rasa e tampouco é satisfeita nos modelos imanentes de confiança. A fé do cristão autêntico tem sua porção transcendental bem característica, muito além da pura experiência pessoal possível. Embora seja totalmente enunciada pela razão não é capaz de ser contentada por ela. Apenas Cristo é capaz de nos bastar em correspondência à fé que emerge em nós nos termos mais profundos das nossas afetividades e ponderações. E quando Ele decide envolver-se, somos cooptados pelo inimaginável e ainda então invivido amor. Quem pode conhecer a mente do Senhor ou se tornar seu conselheiro?

Dar os passos nesse cenário certamente amputa quaisquer muletas onde normalmente descansamos nossas frustrações não resolvidas. A agonia de ser descartado irrefutavelmente do controle de tudo pode ser mortífera. E não acredito que essa observável característica seja desproposital ou simples coincidência. A abstinência de si mesmo promovida pela mensagem do evangelho aos autênticos cristãos gera os mais variados desconfortos que se pode imaginar. O erro até então enxergado há quilômetros de distância passa a ser medido em quadras, depois em metros, em centímetros até que somos desnudados em nossa própria insensatez e hipocrisia, e esse gosto não é nada doce aos nossos séquitos sentidos imaturos.

E nessa caminhada de fé, em meio ao caos da descoberta de quem realmente nunca deveríamos ter sido, cheio de ecos indecifráveis, começamos a contar os ruídos e marcar o ritmo até que tudo seja mansamente padronizado e sistêmico. A calma que impossivelmente viria de nós nos encontra em roupas de paz. Então as ondas descontroladas passam a escutar a frequência duma voz calma e mansa que novamente ordena, como no princípio. Quando as bagunças são expostas no mural das nossas mais nítidas impressões, elas deixam de ser acobertadas pela desculpa e podem então serem ajustadas e carregadas em justiça.

E a justiça toda ironicamente não atinge os injustos, mas é imputada apenas no justo, e através dele somos justificados.

O incômodo que o imerecimento nos causa esbraveja nossa mais escondida soberba e nosso mais acarinhado orgulho. Os desfaz. Nossas mais valiosas moedas recebem o aval de pó, e enfeitam o chão como a poeira enfeita as ruas. Vestígios de graça começam a ser mais palatáveis e notavelmente vividos em cada segundo de vida, e se continuarmos minimamente honestos com tudo eis que o novo simplesmente acontece.

Então a perda é ganho, a morte é vida, o sofrer é paz, a escuridão é clara, e o eu é d'Ele.

Haja coragem.

colete reflexivo

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Ele não gostava muito de parar com o carro em vagas na rua monitoradas por aquelas pessoas que usam coletes com fitas reflexivas, mas não haveria outro jeito de pagar suas contas se não balizar ali mesmo.

Não demorou muito para que pagasse tudo, e na volta ensaiou o discurso do "poxa amigo, não vou ter como te ajudar" que sempre diz em vez da soante e mal educada indisposição para dar o já escasso dinheiro.

Para variar um pouco, disse ao final "... voltei mais pobre do que eu fui, cara" num subterfúgio social com uma pitada de humor. Ligeiramente o senhor de colete que ouviu isso o olhou de cima a baixo, repreendendo a frase:

"Voltou mais pobre nada, porque dinheiro não é a nossa riqueza! Temos saúde, temos o que vestir e podemos andar, somos os mais ricos que podemos!".

O menino cerrou seus lábios e desacelerou sua pressa enquanto testemunhava o senhor que se antecipava a ele em abrir a porta do carro. Mesmo o senhor sabendo que não seria pago, agiu com a mais fina classe. Os olhos do menino ficariam menos secos alguns minutos depois, mas naquele momento o que acontecia era o honroso respeito àquilo que o senhor continuava a dizer.

"Sabe, rapazinho, minha mãe me ensinou uma oração pra Deus. 'Me dê um pão por dia e seja feita a tua vontade, amém!" - continuou o senhor, agora fechando a porta para o menino - "E a vontade tem que ser a dele, porque a nossa, rapazinho, é complicada".

"É a pura verdade, né, nossa vontade é zoada mesmo" completou o menino antes de abaixar o vidro, pôr o cinto e ligar o carro ainda fitando nos olhos o senhor que tinha apenas dois dentes na boca.

"Não, a gente não sabe como pedir. Pedimos coisas pra gente só..." continuou o senhor, em claro tom de ensino.

Antes de sair, ainda enquanto ele me ajudava a tirar o carro da vaga e me aconselhava a não esquecer de acender os faróis do carro pra não levar multa, desejei àquele senhor um bom trabalho e que ele ficasse com Deus.

Mas acho que naquele exato momento Deus decidiu ficar comigo também, mostrando como a mesquinharia das minhas atitudes é facilmente desestabilizada quando ela é exposta aos dons que Ele mesmo dá, de forma a compartilhar com quem Ele mesmo quer e da maneira que deseja.

Não contive as lágrimas diante da simplicidade e da sabedoria que pode existir em pessoas que tão grosseiramente digo que são "apenas mais alguém de colete com fitas reflexivas".

Na verdade o que gera o desconforto social é puramente o meu orgulho! Ora ora, ele ainda está por aqui, quem diria?! Aquele que cuido tanto para que não exista nas minhas práticas ainda aparece querendo fazer inexistir as pessoas por trás dos coletes, as generalizando sem o crivo do olhar de Cristo que eu, professando Ele como meu Senhor, deveria ter.

Não esqueça de ser a luz que deveríamos ser, ou então o luzeiro te dará uma doce surra de te deixar chorando no carro por aí.

isaias 55

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A voz enrouquecida expunha a cansada idade ainda aprisionada no corpo que lutava para manter-se são. Nem o certo e vindouro martírio, contudo, poderia afanar a alegria que tinha o interlocutor quando dizia em alto e bom som aquilo que seus estudos e Aquele testificavam em seu coração.

Os olhos envoltos por olheiras ainda observavam mercadores de água e alimentos anunciando suas mais preciosas mercadorias. Mas algo ainda era injusto: apenas quem tivesse dinheiro saciaria a sede, e apenas quem pudesse comprar levaria comida. Ao chão, miseráveis esticavam suas mãos suplicando por migalhas, gotas de água e esmolas, até que a sequidão de seus lábios sepultasse lentamente seus corpos já necrosados.

Os trabalhos eram escassos e traziam maior insatisfação do que o mendigar. Viver era objetivo nato, animalesco, instintivo e o único objeto buscado. A impiedade era impudicícia e pintava as ruas de toda a cidade. Ainda haviam, embora poucos, aqueles que margeavam horizontes mais puros atentos às promessas que haviam recebido de seus antepassados.

Estes olhavam para o leste quando do oeste soprava toda a imundícia que nutria os corações e mentes dos perversos. Olhavam para o Sul quando do norte vinha toda a prevaricação que sustentava os subversivos. Olhavam para o alto quando os outros olhares eram usualmente para si mesmos.

Porém só conseguiam enxergar algo que não tinha beleza que pudesse causar afeição ou desejo, e não entendiam. Desviavam o olhar buscando consolo e só conseguiam enxergar algo enfermo e esmagado, opresso e ferido. Um outro tão semelhante a eles, sem qualquer majestade, igualmente experimentado em sofrimento. Apenas mais uma planta recente e fraca nascida dum solo infertilizado. Só enxergavam esse algo maldito, e o rejeitaram.

Pela quinquagésima quinta vez o interlocutor levanta-se abruptamente, entre pigarros, fazendo com que sua voz fosse novamente ecoada entre os mercadores e os mendigos. Por vários instantes cessou o comércio, os pedidos e a movimentação, todos assombrados diante do que fora dito.

"Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e, vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo. Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz? Escutem, escutem-me, e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará na mais fina refeição. Deem ouvidos e venham a mim; ouçam-me, para que sua alma viva. Farei uma aliança eterna com vocês, minha fidelidade prometida a Davi."

A sequidão passou a enxugar a garganta dos mercadores enquanto os necessitados das mãos esticadas salivavam e lacrimejavam. A esperança chacoalhava os corações dos desanimados e tremulejava as mãos dos escribas que se reuniam para escrever rapidamente o que ouviam.

"Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos", declara o Senhor. "Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos. Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: Ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei."

folhinhas

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Essa é uma história que aconteceu de verdade com uma amiga, e eu tomei a liberdade para adornar ela nisso que você vai ler aqui. Tenha um lindo dia, com céu azul e cheirinho de eucaliptos. :)

O céu estava azulzinho, e por mais que nenhum algodão-doce branco estivesse se arrastando lentamente nele continuava sendo uma visão extremamente linda. A única cor que se via olhando para cima se desfazia num degradê manso, combinando com a suave brisa que em sua dança acabava trombando com a pele, dando uma ligeira sensação de amanhecer.

O relógio mais uma vez havia deixado certa folga entre os dois ponteiros para que alguma coisa pudesse ser feita pela menina, antes deles pontualmente marcarem os primeiros compromissos dela em sua rotina. E não foi preciso nem muito planejamento para que passos a esmo fossem dados ao redor do colégio na composição do pequeno prólogo.

Aquela instituição era conhecida por agregar a gentileza ambiental com a perspicácia acadêmica, e certamente uma caminhada arborizava os pensamentos. Porém naquele dia o palco verde da rotina estava escondendo a travessura que havia planejado para a menina tão desapercebida, e até os pequenos insetos que moravam por ali cochichavam entre sorrisos como se já soubessem o que aquela manhã ensinaria.

Ela caminhou até encontrar algumas folhas de eucaliptos no chão que não estavam nem tão verdes e nem tão secas, mas perfeitamente conscientes de que eram folhas de eucaliptos. A menina melindrosamente fez prova disso, embora ela até hoje não admita que estava testando as folhinhas, para ver se realmente elas eram o que se evidenciava.

De forma muito natural ela trouxe as folhas para perto de seu rosto enquanto esmagava as folhas ente os seus dedos, e isso lhe agradou. Ela pôde sentir de olhos fechados, e sentiria mesmo que estivesse de costas, que as folhinhas nem tão verdes e nem tão secas tinham de fato conservado seu propósito de serem originalmente folhas de eucaliptos. O exalar do cheiro inquestionavelmente revelou sua característica essência aguçada de pungência. O vento tinha também sido irrepreensível no seu papel, ventando a intensidade perfeita que direcionasse o aroma da folhinha direto para as narinas da menina.

A folhinha até então teve certo sentimento diferente com o vento, pois na terra ela não tinha plenamente entendido um dos últimos contatos que tiveram. Parecia que lá no alto era mais claro, e ali em baixo precisava de fé. Há não muito tempo a justiça do eterno amigo a levou a abandonar sua casa, a planta de eucaliptos. E ela desceu, lá do alto, pra se entregar pra morte. Mas a folhinha lembrava disso apenas pela fé, e por isso ficou bastante desconcertada com o vento, achando-se abandonada. Mas sabia, lá no fundo, que isso de alguma forma contribuiria para o propósito tão mais nobre que latejava em sua essência. A morte tem esses irônicos paradoxos. Mas a história da folhinha é pra outro momento.

O que aconteceu é que o cheiro daquela folhinha coagiu a menina de tal forma que ela ficou no mínimo intrigada. Num esmiuçado sorriso entre o erguer de olhos para a copa do eucaliptos e para o chão, ela percebeu a alguns passos um galho com várias folhinhas de eucaliptos igualmente nem tão verdes e nem tão secas mas perfeitamente conscientes. Sem pensar três vezes ela levou o galho de eucaliptos para a sala de aula, e instruiu cada um dos seus colegas a fazer prova de cada uma das folhinhas (embora ela até hoje não admita que estava testando elas em seu propósito). Todas foram firmes, e exalaram a mais penetrante fragrância de propósito em serem todas folhas de eucaliptos, inundando todas as salas cheias de vida e vazias de cheiros. Não se podia sentir outro aroma senão o que a menina havia levado consigo. O vento lá fora uivava de felicidade, e as árvores dançavam de alegria. Os insetos corriam efusivos de empolgação, levando as boas novas, e a natureza exultava! A árvore de eucaliptos quase cansou suas mandíbulas de tantos sorrisos distribuídos para corresponder as intermináveis congratulações que estava recebendo, e todas as suas folhinhas foram elogiadas. No alvoroço todo, algumas até se lançaram ao chão, em memória da folhinha que um dia também desceu. Elas tiveram o mesmo sentimento de entrega total, dançaram com o vento, guardaram a essência. Era ali que estava o propósito.

Tudo não durou mais que algumas horas, e de alguma forma a menina não era mais a mesma. O aprendizado, tão grande aprendizado, que excedeu ela mesma, que excedeu os colegas de sua sala, que excedeu a própria sala, e as salas vizinhas, e que excedeu todas as folhinhas finalmente descansou no mesmo lugar onde as certezas mais profundas da vida tomam um café bem gostoso feito com moedor antigo. Ali, o aprendizado e as certezas mais profundas da vida comungam a mesma fé a serviço do Criador.

Ah, o Criador e sua singular didática!
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