Um conto bobo

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O pátio daquela escola não estava tão lotado. Se eu disser que estava meio vazio não seria de forma alguma sinal de pessimismo. Aliás, poderia dizer que seria uma fala otimista, haja visto que de fato havia somente uma ou outra criança andando por aquele espaço naquele recreio.

Atravessando aquele espaço que ecoava, via-se a inconfundível amizade de Cristiano e Thiago. Embora tivessem apenas oito anos, eram inseparáveis. E o que mais chamava a atenção, depois de um curto tempo de análise, era a gritante diferença de personalidade entre os dois:

Cristiano era mais sonhador, e poderia ficar horas brincando com um gameboy se o deixassem com ele. Thiago questionaria todos os jogos, tentaria achar erros, e acabaria por deixar o brinquedo em qualquer canto às críticas. Cristiano sempre estava conversando sobre as partes mais legais que aconteciam nas brincadeiras de educação física, enquanto Thiago optava por dar mais atenção às discussões ou brigas.

Embora fossem diferentes, eram amigos de verdade. Estavam sempre juntos, mas em certos pontos havia a discordância de opiniões. Sim, tinham oito anos mas conseguiam facilmente formular opinião a respeito de algo. Como se não bastasse a surpresa pela inteligência grande de ambos, o acaso deixava que fossem formadas duas posições totalmente opostas.

Certa vez a professora perguntou a respeito do aborto para a turma a turma deles, com receio de que fosse algo além do intelecto daquela turma de segunda série. Cristiano e Thiago, um após o outro, argumentaram com os dois extremos de opiniões que qualquer intelectual de hoje demoraria um pouco para conseguir atingí-las.

Na sala dos professores aquele dia, a amizade dos dois foi amplamente comentada por todos os professores, sempre sendo mencionada essa latente diferença. Thiago era mais racional, queria fórmulas, gostava de matemática. Cristiano era mais intuitivo, queria escrever, gostava de português.

O tempo foi passando, e os dois ainda continuavam amigos. As discussões agora, no ensino médio, eram sobre a sociedade, e não mais sobre a aula de educação física. Como era de se esperar, o nível intelectual dos dois também havia evoluído, cada qual ante sua forma de pensar: Cristiano, o sonhador; Thiago, o racional.

A cidade não era grande, e os dois, nunca tendo repetido de ano, continuaram a estudar na mesma turma. A diferença deles tivera fomentado algumas discussões mais acaloradas, portanto não havia mais aquela enorme amizade, aquela inseparabilidade. Thiago nunca deu o braço a torcer, e acreditava excessivamente que ele sempre estivera correto em tudo quanto tinham discutido. Cristiano ficou por algum tempo magoado, pediu perdão, em vão. Mas com o tempo os dois voltaram a se falar e reataram a amizade. Claro, o laço não seria mais o mesmo, haviam marcas agora, mas se perguntassem aos dois o que eles eram, diriam que eram amigos.

Cristiano sabia que sua passagem aqui na Terra poderia ser grande, tinha algo dentro dele que sempre dizia isso a ele. Mas ao mesmo tempo que pensava na possibilidade de ter algum status sumariamente desconsiderava tal fato ao se achar pequeno, ao pensar na sua finitude.

Thiago queria que sua passagem aqui na Terra fosse grande, ele sempre repetia isso pra si mesmo. Mas ao mesmo tempo que alimentava tal convicção, se frustrava pois cada coisa que ele dizia contradizia muitas outras coisas que ele dissera.

Cristiano, depois de muitos questionamentos levantados em sua cabeça, teve convicção de que havia algo que lhe faltava, e buscou. Buscou nas paixões, nos bares, nos clubes, nas religiões. Até que encontrou o que precisava em Deus. Ele dizia para quem quisesse ouvir o quanto o Espírito Santo o havia ajudado a preencher o vazio que ele sempre sentiu. Quando menos percebeu, seus relatos o haviam levado a um lugar mais alto. As vezes ele parava e lembrava que sempre pensou que poderia ser grande ou ter algum status, mas não sabia como isso poderia acontecer. Descobriu a infinitude de Deus, e fraco conseguiu ser forte. E pequeno, conseguiu ser grande. E sonhador conseguiu a realização.

Thiago, cheio de tantas verdades formuladas e capazes de serem consideradas inverdades, depois de muitas respostas não convincentes, percebeu que havia algo faltando dentro dele. Buscou nos questionamentos, sempre havia buscado, mas não encontrou. Daí procurou nos bares, nas paixões, nos clubes. A vida lhe tinha ensinado a ser ateu, ou ele havia lhe ensinado, não se sabe ao certo. Mas sempre teve asco de Deus. Nunca acreditou que Ele pudesse existir, pois isso transcendia às verdades formuladas, não poderia ser comprovado. Inconformado, passou por várias crises existenciais. Andou por todos os caminhos obscuros dessa vida que já pudessem andar ao se desligar de todos os amigos, inclusive Cristiano. Ficou a ponto de ser internado como louco, passou a morar nas ruas.

Até que um dia Cristiano o encontrou e o abraçou. Thiago estava sujo em uma esquina. O aperto daquele abraço sincero levou Thiago, o grande Thiago, a derramar lágrimas. Era estranho chorar, e ele até tentou relutar contra as lágrimas, pois também não havia motivos para isso, mas não pode se conter. Se rendeu às lágrimas, mesmo sem ter motivos, mesmo sem ter razão. Não queria mais saber dessa maldita razão que nunca lhe trouxera respostas, que não havia conseguido preencher o vazio que ao longo dos anos aumentou dentro dele.

Thiago não se importou com nada, e retribuiu aos soluços o abraço apertado que havia recebido naquele dia de Cristiano.

Depois, quando Cristiano foi embora, parecia que havia nascido algo dentro do coração de Thiago. Era pequeno, mas estava crescendo de uma maneira muito linda dentro do seu coração. Ele poderia passar horas admirando uma árvore, observando algum casal de namorados.

Thiago começou a sonhar, até se arriscou em falar do amor pra alguns amigos que ele havia feito nas ruas.

Mal sabia ele que o personagem principal nessa história nunca havia sido Thiago ou Cristiano. Mal sabia ele que por trás de todo esse enredo o Espírito Santo sempre houvera protagonizado tudo. Deus sempre esteve por trás dos sonhos de Cristiano, e de seu choro que o levou a pedir desculpas para Thiago. Mal sabia ele que o Espírito Santo sempre havia tocado o coração dele, como nessa vez, mas ele nunca tinha dado ouvidos.

Mas Deus é paciente, e sabe o momento certo de agir. E nem que seja por um conto bobo em algum blog por aí, Ele sempre está falando ao teu coração. É só você conseguir ouvir e perceber quem é o protagonista desse mundo.
markinhos.com