riso

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Havia um menino que quando criança sempre ousara olhar para o céu. Não importava se Ele estava nublado, chuvoso, azul ou pontilhado pelas estrelas. Não importava se havia uma bola gigante que alguns diziam ser feita de queijo, ou se havia uma bola de fogo que mal conseguia ser focada com os olhos do garoto, de tão forte. Ele sempre olhava para o céu, e ficava admirando, e percebendo que não havia nenhum espaço no alto que não tivesse céu. Normalmente quando o menino fazia isso, suspirava e começava a pensar em coisas grandes. Percebia que os grandes aviões que riscavam os céus já não eram mais tão grandes assim, e se não houvessem nuvens ou casas que os escondessem, eles nunca iriam se perder de vista nem tampouco sair dos céus, por mais pequeno que eles ficassem. Não havia como olhar para o céu sem não ser visto pelo céu. Bastava ter uma janelinha pequena e lá estava ele, o céu, em suas diversas formas.

Os pensamentos daquele menino variavam e ainda variariam muito, porém sua contemplação do céu sempre teve a mesma linha de pensamentos, nunca havia mudado, senão ampliado. Até hoje o menino não sabe explicar direito o que se passa dentro de seus pensamentos quando olha para o céu. É algo íntimo, profundo, e se este menino tenta se alongar acerca desse assunto, seja escrevendo em um computador ou só pensando, a velocidade do seu sangue começa a ficar acelerada e o tempo de intervalo entre as batidas do seu coração ficam mais resumidos. Talvez a maior expressão artística que ele pode fazer para tentar dar pistas ao cenário sobrenatural que se passa dentro de sua cabeça é um simples riso enquanto seus olhos fitam os céus. Um simples riso.

Ele sabe que Deus vestia os céus das cores mais lindas enquanto conversava com Adão, e hoje esse menino acha que Deus fazia tudo isso de propósito. Ele sabe que Deus vestiu os céus das cores mais feias e amedrontadoras quando seu único filho morreu em uma cruz. O menino sempre lembra dessas duas histórias quando ainda hoje volta a olhar para o céu e percebe as cores lindas que enfeitam o céu nas tardes ensolaradas e também quando dentro de casa olha para aquele céu negro e relampejante que acompanha uma tempestade. Suas reações são de profunda alegria e profundo medo, respectivamente.

Mas houve um templo em que o olhar daquele menino ficou surpreso quando olhou para aquele mesmo céu. O brilho de seus olhos refletiam os incontáveis brilhos que as estrelas tinham ao serem olhadas não de uma cidade grande, mas de uma chácara antiga e um pouco esquecida, no extremo sudoeste de Minas Gerais. A ausência de ruas e dos luminares humanos que as picoteiam e a única luzinha incandescente fraca da casa onde ele tinha ido passar algumas semanas (para andar pela primeira vez na vida à cavalo), criaram um cenário incrível no céu.

Ali Deus havia revelado mais um jeito de deixar o céu quando nossas invenções não ofuscavam as Suas criações. Infinitamente mais lindo do que qualquer outra coisa que os homens podiam fazer. Aquele tapete feito como um mosaico de estrelas deixou o menino maravilhado, embora houvesse também um pouco de medo por causa da escuridão.

Não sabia o infantil menino que aquele cenário maravilhoso seria palco para mais outra história, e esta por sua vez circundaria toda a história do menino. Deus prometera a Abraão uma descendência incontável, como as estrelas do céu, a areia da praia e o pó da terra. Mas Deus também pediria provas em todo o tempo à Abraão de entrega. Não apenas renunciando sua cidade, parentela e a casa de seu pai para ir para uma outra terra, a qual Deus o mostraria, mas iria chegar um dia que ele ofertaria para Deus sua maior renúncia, e esta selaria a aliança que ela havia de fazer com Deus por toda a sua vida.

Abandonar até o que Deus havia dado a Abraão, mesmo que isso fosse contradizer o que Deus havia prometido seria sua maior renúncia, entregar seu único filho, Isaque, mesmo sabendo que o Senhor havia prometido fazer de Abraão pai de multidões, nome, inclusive, dado por Deus um ano antes de Isaque nascer. Como faria Deus tal coisa? Como Deus faria de Abraão um pai de multidões sendo que Deus havia mandado Abraão oferecê-lo como sacrifício?

Para o menino não seria diferente. Deus o havia chamado para outro lugar, para uma outra terra. E esta Terra seria a mesma terra onde Deus havia mostrado a perfeição das estrelas para o menino. E quando este menino fosse para este lugar, teria também que deixar sua parentela e a casa de seus pais.
E eu obedeci e deixei.

Não somente Abraão entregara seu filho, mas o próprio Deus entregou o seu, e não fez leve a Sua mão como fizera com Isaque, provendo o cordeirinho para o sacrifício, mas agradou moer seu próprio filho para que a maior Aliança de toda a história fosse selada. Aliança que me traria novamente para Deus.

E além dessa aliança, Cristo, ser o meu alvo, fazer parte de seus sofrimentos é minha meta e o selo desta aliança. E só farei parte disso se eu conseguir oferecer a minha maior e melhor renúncia, a renúncia diária e constante de todas as intervenções da carne para então viver no espírito. Renúncia da minha própria vida, como um sacrifício vivo e pessoal. Não quero cordeirinhos no meu lugar, pois o Cordeiro que me salvou e me deu acesso ao Pai já morreu para que eu tivesse vida. E tendo eu ganho o direito à vida eterna não me resta nada além do que morrer para mim mesmo e viver todas essas coisas que o Senhor preparou para mim.

E o céu não somente me faria lembrar das histórias de Abraão e de como esta se faria semelhante a sua história pessoal, com todas as promessas e estrelas brilhantes e lindas. Mas o céu também se vestiria das cores mais lindas de um lindo entardecer que naturalmente me conduziria a um relacionamento com Deus, e me faria lembrar de orar. E o céu se faria tempestades e me lembraria que é necessário renúncia pessoal, é necessário cruz.

E o céu, ah o céu, quando eu olho para esse plano de fundo que Deus usa para falar comigo, vejo que sua simples existência me faz produzir a mais simples e complexa forma de expressão: um riso. Mal sabia eu que essa palavrinha usada na melhor intenção de expressar o quanto o céu significa para mim, riso, vem do hebraico. E riso no hebraico transliterado é Isaque.

Deus, o motivo, a razão e o dono do meu riso, da minha renúncia, do meu Isaque.
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