o exilado

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Sou o tipo de pessoa que acredita em sonhos. Tanto os que acontecem durante o sono quanto os que não. Se fosse necessário uma palavra para apontar quem eu sou, com certeza sonhador não  seria uma má opção. Essa palavra faz tão parte de mim que o futuro tem mais importância para mim do que o passado. Certamente nisso eu sou desequilibrado, margeio com os olhos o horizonte buscado sem me preocupar muito com os passos que foram dados. Um outro detalhe ainda sobre esse assunto é que às vezes, quando penso sobre a minha história, não sei se realmente algo aconteceu ou foi algo que sonhei dormindo. Até alguns lugares onde eu dormi parecem nunca terem existido, pois meu passado parece que vira sonho dormido.

Escrevi essa introdução para compartilhar uma experiência que tive em um sonho esses dias, e não vou poupar os detalhes, pois esse sonho mudou minha vida. Quero também ressaltar que creio que podemos extrair de tais experiências entendimentos taxativamente novos e externos a nós. Em outras palavras, acredito que Deus não silenciou seu diálogo com os seres humanos e pode prover certas experiências únicas e tenho convicção de que essa foi uma delas.

Por várias vezes aconteceu comigo algo chamado de paralisia do sono, e para quem não sabe o que é, esse fenômeno é caracterizado pela imobilização do corpo ainda que a mente esteja ligada e alerta, sabendo que está acordada. Em casos mais graves (que podem até causar morte por asfixia) ocorre também a apineia do sono, onde não só o corpo paralisa, mas a movimentação respiratória. O meu caso é esse último, o mais grave, onde a paralisia é acompanhada da apineia.

Quando o caso mais leve acontece, paralisia sem apineia, eu me esforço para mexer uma extremidade do corpo, pois isso estimula o cérebro a mandar sinais que passam por boa parte do corpo e isso culmina no despertar das funções motoras. Normalmente quando consigo concentrar e mexer o dedinho do pé, todo o meu corpo então acorda. Se eu tentar falar algo, por exemplo, a distância do cérebro para a boca é menor, e o meu corpo permanecerá imóvel com os balbuceios e grunhidos que se ouvirão da boca. Porém quando o que acontece é o caso mais grave, e isso acontece comigo geralmente de quatro a cinco vezes por ano, eu fico desesperado. Conscientemente eu quero gritar para que alguém mexa comigo e produza um reflexo involuntário no meu corpo que ative ao menos uma percepção sensorial para despertá-lo, mas no caso nem as cordas vocais obedecem, tampouco a respiração. Eu sei que tenho que acordar rápido pois cada segundo que não consiga fazê-lo, é um segundo a menos de oxigênio adquirido para o meu corpo.

O que aconteceu comigo esses dias, porém, não sei o que foi. Pois eu estava dormindo quando começou a acontecer a paralisia e a apineia, juntas, porém eu creio que em sonho e não de fato na realidade. Isso eu nunca vou saber com exatidão, pois isso culminou numa série de outros eventos do sono que não irei definí-los antes de contá-los pra leitura não ficar muito técnica.

Nessa introdução desesperadora, o início que se deu em "sonho" de paralisia e apineia, eu me via mais uma vez em desespero e procurando gritar para alguém me acordar. Porém diferente de todas as outras vezes eu senti alguém sentando do lado da minha cama e uma mão carinho me dizia "filho, calma, tá tudo bem". Parecia ser minha mãe, pois havia claramente uma presença materna, até a voz parecia com a dela. Mas não vi seu rosto, não vi nem seu corpo. Só escutei a voz maternal me acalmando, e rendido me acalmei, mesmo sabendo que minha mãe mora em outro estado e não fazia sentido ela estar ali de forma presente.

Imediatamente eu me vi deitado de barriga para cima e meus olhos fitavam as grades da janela do meu quarto. As janelas são pequenas e tudo estava em preto e branco.  Eu ouvia do vizinho uma melodia produzida por algum tipo de instrumento de sopro, parecido com um sax, de uma canção da Harpa Cristã com título "O exilado". A parte que eu ouvi sendo tocada é logo o começo: "Da linda pátria estou bem longe / cansado estou...". A medida que o sax cantava esses dois versos, uma sensação de alegria me enchia. Eu estava deitado de costas e os meus dedos se cruzavam no meu peito, como se descansasse ante a melodia que me enchia de suspiros.

Mas não foram necessários mais versos e parecia que eu havia acordado, pois só a recente memória do até então sonho havia. Abri os olhos e sem razão alguma metodicamente me levantei e quis ir à sala do apartamento onde moro. Os meus olhos olhavam o chão e os passos que estavam sendo todos milimetricamente contados. Eu cantarolava baixinho a música que havia acabado de escutar, no sonho, porém havia algo estranho, e durante os meus passos, por mim contados, pude perceber que era outro sonho. Percebi não só pela descrição minuciosa de contagem que não faço, mas pelos passos: havia já dado cinco e não havia chegado na porta. Meu quarto é pequeno e isso me fez entender que tinha "acordado" do sonho anterior em outro sonho. Quando percebi isso, continuei cantarolando os outros dois versos da primeira estrofe, que dizem: "Eu tenho de Jesus saudade / Oh, quando é que eu vou...".

Quando finalmente consegui abrir a porta, parecia que novamente havia acordado. Já não havia a música, mas o sentimento que ela causara. E parecia que havia algum tempo que esses dois sonhos seguidos haviam acontecido - agora percebo que era outro sonho, mas no momento sonhado eu não percebi. Eu me levantei e abri a porta com a mesma vontade do sonho anterior e observei que haviam algumas pessoas olhando para a televisão, umas seis ou sete pessoas. Todas carregavam respeito e tristeza em suas posturas, e isso me soou estranho e também me fez prestar atenção no que estava passando na televisão. Silenciosamente percorri o corredor e me sentei no braço do sofá vazio. Ninguém havia percebido minha movimentação, pois fui por detrás deles, e então vi a repórter narrando uma tragédia: a morte de um menino. Parecia que todos os que estavam ali o conheciam, e embora eu conhecesse todos ali (amigos e colegas) não sabia quem era o menino que os enlutava. Olhei mais para a esquerda e vi que uma dessas pessoas era minha mãe, ela percebeu a  minha presença e olhou pra mim denunciando as lágrimas pelo menino que rolavam de sua face.

Novamente acordei, e fui direto para a sala no último sonho que aconteceu. O sentimento agora era de tristeza por empatia e curiosidade. Agora todos estavam chorando copiosamente, e o clima parecia ser de um velório mesmo. E realmente era um velório, de um menino que estava num caixão percebido. Minha mãe, que agora não chorava, embora seu semblante ainda fosse triste, me carregou pra porta entreaberta dizendo: "Vem aqui que eu tenho um presente pra você!" e me levou até a porta. Eu tinha uma desconfiança de quem seria, pois simplesmente acreditava que fosse meu pai. E estava certo. Ele então entrou pela porta com olhar de choro que parecia não combinar com a alegria da canção "parabéns pra você" que ele cantava e tocava num violão antigo e tão bem conhecido por mim. Porém nem a falta da corda que deixava a canção desafinada incitou a gastura que qualquer músico sente ao ouvir um instrumento assim, pois a intenção do meu pai me fez entender tudo o que havia acontecido ali. E quando eu percebi, com o olhar de alguém que descobre as coisas que estavam tão óbvias, me rendi ao choro.

As lágrimas que chorei nesse último sonho eram de entendimento de que eu havia participado do meu próprio velório! Quem havia morrido e sido noticiado para os meus conhecidos, era eu! E desde o primeiro sonho isso havia sido minuciosamente apontado: a contar da canção tão esperançosa escutada numa posição tumular que me enchia de alegria, escutada após ter sido consolado ante o desespero da morte por paralisia e apineia, até os passos que puderam ser milimetricamente contados como se já tivessem sido findados. Enfim, foram tantos os detalhes (leia novamente o texto e você vai perceber vários) que o meu Pai havia finalmente revelado quando o seu parabéns cantado quase me soou um convite. Mas ainda não era hora. Então chorei fartamente e com uma gratidão enorme o abracei, e me alegrei.

Novamente acordei, em lágrimas recém deixadas pelo sonho.
markinhos.com