covarde

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Ouçam-me, escutem de maneira clara o que digo aos berros com a minha vida e me digam se seria ou não covardia o fato que lhes apresentarei! Vejam-me, enxerguem de forma indubitável o que mostro com atitudes recorrentes e exerçam juízo sobre a questão de ser ou não um completo covarde diante do que vos direi! Endossaram-me com grandes mentiras sobre o que e quem eu seria e hoje as reproduzo displicentemente de forma a nutrir o ego em maldade quista, e sobre essas coisas me delongarei. Admoestai-me, rogo para que não me defenda ante as assombrações que faço todos os dias.

A vida já me trouxe ao menos quatro certezas: a de que estou vivo, a de que estou morrendo, a de que fujo da morte e, logo, a de que estou sobrevivendo. Essas duas últimas se complementam, pois é a fuga que me faz, de fato, sobreviver. E para que esse processo de fugir da morte seja possível, tenho necessidades básicas, e não sobreviveria se pelo menos uma delas me fossem tiradas. Preciso respirar, comer, dormir e até uma caminhada adia o processo de atrofiação dos músculos.

Seria nobre, porém, se - a fuga - o anseio que tenho por vida justificassem os métodos que me permitem tê-la. Tais métodos carregam dúvidas quanto a minha idoneidade, pois divulgo eles como sendo meus e sei bem que isso não é verdade. Eu digo que respiro, mas o ar que enche os pulmões não é meu. Eu digo que como, mas a terra que fez nascer a comida que como não são minhas (e nem de quem as declarou propriedade ou as vendeu). Eu digo que acordo, mas não posso fazer todo o silêncio que existe e me permite dormir. Eu digo que ando, mas não é minha a capacidade nata de andar.

Eu digo e repito tantas coisas a meu próprio respeito... logo eu que ganhei a vida como presente e sem nunca ter mérito algum pra pedi-la, sequer ganhá-la, tampouco tê-la. Recebi vida como graça, e reproduzo a desgraça de achar que é meu, e tenho, e posso, e sou, e faço, tudo por simples mérito. Me aproprio de tudo, sendo que nem a vida que me passa nas vísceras é algo próprio, pois nunca pude nem nunca poderei dar a alguém.

De tudo o que a vida me trouxe, deduzo a mentira do 'eu' e a covardia do 'meu'.

Ouçam-me, vejam-me, admoestem-me. Rogo para que não me defendam ante as assombrações do EU e do MEU.
markinhos.com