a cruz é suficiente

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É curioso o fato de que a igreja parece ainda não ter entendido com profundidade o valor e a significância que o Antigo Testamento traz para a fé cristã. O ainda imaturo conhecimento de Jesus Cristo como centralidade da fé e prisma para compreensão do maravilhoso projeto divino, que tem como pilar a mensagem da cruz, pode tornar a caminhada insalubre e doentia. Não é raro encontrar alguns ministros do evangelho confusos quanto as ordenanças cívicas, religiosas e morais da lei mosaica tidas como padrão antes da chegada de Jesus. Aliado ao desequilíbrio de conhecimento mínimo, em plena era da informação, acentua-se nas igrejas o conhecido movimento judaizante.

O movimento judaizante estava crescendo de maneira extremamente sutil dentro das igrejas evangélicas, porém de algum tempo pra cá é notável que algumas iniciativas com maiores proporções, principalmente em Belo Horizonte, têm espalhado esse cenário que desestabiliza e coopta aqueles que carecem de mínimo conhecimento bíblico e cristão. Mesmo para quem não conhece o movimento, não é esforçoso sua identificação. Indícios do movimento judaizante são percebidos quando a valorização da cultura judaica, dos seus ensinamentos, da sua localização geográfica, dos seus utensílios de culto (shofar, arca da aliança, vestimentas, incenso), das ordenanças de guardar o sábado e os dias de festa judaica, etc, acabam perdendo o prisma pelo qual deveriam ser interpretados e consequentemente ganham relevância espiritual. Em outras palavras, a percepção do movimento judaizante dentro das igrejas que deveriam anunciar Jesus se dá quando este é trocado por liturgias religiosas e instrução civil extraídas esporadicamente do Antigo Testamento.

Existe um erro gravíssimo de interpretação bíblica, e falta de conhecimento generalizada - que acaba nutrindo esse movimento, no que diz respeito a Jesus Cristo e sua eficiência no cumprimento da lei instituída por Deus à nação de Israel. Como o apóstolo Paulo insistentemente defende em suas cartas, especialmente nas destinadas aos Hebreus e aos Gálatas, essa imposição da tradição judaica não deve ser entendida como cristã.

Quando Paulo escreve para aos Gálatas, por exemplo, a situação da igreja é semelhante a encontrada nos dias de hoje. Havia uma intensa proposição, por parte dos judeus, que as leis de Moisés tivessem que ser cumpridas pelos gentios por ser ordenança divina. O que os judeus (convertidos a Jesus? Será?) não entendiam era que, com a vinda de Jesus Cristo, não havia mais geografia ou nação étnica, tampouco práticas religiosas, que devessem ser observadas pelos cristãos. No capítulo 5 da carta que Paulo escreveu aos Gálatas (uma leitura revigorante para entendimento pleno desse texto), Paulo é enfático: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gálatas 5.1 NVI). Esse capítulo aborda exatamente esse assunto, e de forma inflexível Paulo indica as práticas judaicas como escravatórias. Por que razão ainda sustentamos ou damos crédito indevido a elas? Não seria Jesus Cristo o único que deveria ser creditado na fé que alega seu nome - cristã?

Jesus Cristo foi o único que cumpriu a Lei, e ele não delegou isso a mais ninguém. Ele se fez carne, se entregou como oferta para expiação de pecados, rompendo de uma vez por todas com a necessidade de tal feito. A cruz nos é suficiente. As leis tinham como função estabelecer um sistema que apontasse para a vinda do Messias, e ele já veio. Ironicamente - e de forma geral, as práticas judaicas, religiosas e cívicas, não foram suficientes para reconhecê-lo. Mesmo com toda a Lei que preparou o caminho humano para sua vinda, Jesus foi desprezado e traído. Mesmo com o conhecimento da Lei, Jesus foi rejeitado pelos seus. De forma ainda mais enfática, portanto, não existe qualquer valoração espiritual da Lei – muito menos para fins de salvação ou elevo espiritual.

O rompimento que Jesus fez também foi com toda a estruturação nacionalista, étnica, geográfica e litúrgica do culto a Deus. Na concepção cristã não existe mais qualquer diferença entre gentios ou judeus, portanto, não existe também qualquer diferenciação espiritual em termos geográficos ou de elemento de culto. O evangelho nos traz a profundidade imbuída de transformação de mente que rompe qualquer hierarquia ou exclusivismos divinos por este ou aquele grupo, por este ou aquele elemento cultual, por este ou aquele vocabulário. A preocupação do cristão deve ser apresentar um culto sincero em espírito e em verdade.

Devemos inferir, portanto, a importância do Antigo Testamento a partir do prisma interpretativo de Cristo e seu profundo chamado, e extrair princípios morais que Deus constantemente expõe em toda a sua Palavra. Qualquer externalização ritualística ou a adoção e elementos judaicos, estendendo a qualquer outros elementos, que caracterize uma descentralização de Jesus Cristo carece de coerência.

Portanto, se Jesus Cristo e sua maravilhosa obra de graça e amor, pelo visto, ainda não é entendida minimamente, sugiro que voltemos ardorosamente ao estudo intenso e profundo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, para que não imputemos a nós mesmos fardo doentio e pesado que homem algum, se não o próprio, foi capaz de suportar. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou, larguemos de uma vez por todas as algemas que ainda queremos segurar.

A cruz é suficiente.

(Trecho do texto foi publicado no jornal Atos Hoje, em 25 de outubro de 2015, página 10)
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