eterna lembrança, sentido

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Se você declara ser cristão há algum tempo muito provavelmente já deve ter ouvido – talvez dito – que nós naturalmente carregamos um anseio pela eternidade. Se desejássemos fundamentar essa ideia cientificamente poderíamos recorrer facilmente ao estudo antropológico que observa uma estrutura de culto em todas as culturas primitivas, concomitantemente. É sugestivo que o ser humano tenha em si lembranças turvas de um passado, talvez em comum, onde a ideia do gênesis humano existiu. De alguma forma essas lembranças embaçadas ao longo da história foram (e ainda são) compartilhadas em grupos nas expressões de cultos religiosos, onde a unidade de uma comunidade busca evidenciar sentimento tão visceral. Na maioria das vezes, porém, devido a névoa que encobre tais lembranças fazendo-nos oscilar em ceticismo ou fanatismo, acabamos funestamente resolvendo a questão no pragmatismo e ritualismo.

Honestamente, e conversando ontem com um amigo sobre isso, consigo observar em minhas lembranças mais remotas e abstratas vestígios desse desejo genotípico supracitado. Nessa espécie de reflexão meio metafísica, de fato longínqua, os paradoxos, por exemplo, parecem dissolver-se e resolver-se entre si em aceitação e calma desenhando o pano de fundo do cenário onde reflito. O terror e o regozijo, o medo e o descanso, a paz e o agito, o choro e o riso, o vômito e o perfume saltam aos sentidos e simultaneamente dançam na forma das silhuetas sombrias das árvores que observam os carros em todas as rodovias. O grito silencioso carregado pelo vento que as deixam menos mortas e mais audíveis toca levemente as minhas reflexões mais amagotas e abstratas.

Desde que eu tenho sete ou oito anos as viagens de ônibus, antes sempre feitas em companhia materna, fisgam tais lembranças entranhadas desaguando na mente e nos olhos suas peripécias quando observo as silhuetas das árvores. A reflexão genotípica se torna uma portinhola esguia onde as estruturas humanas e os clichês que ouvimos em igrejas, em rituais, em mantras, do pastor que grita, da religião que mata, da fala que limita, não tem nenhuma aceitação. Temo dizer, mas nem o fato de orar com palavras, nessa minha lembrança, faz sentido. Lá parece que não se contam minutos, não se falam palavras e tampouco os olhos se fecham pra o amigo. A mais profunda empatia com o outro apenas acontece, inenarravelmente.

Em tais momentos percebo tão nitidamente que hoje somos o resultado de criaturas que um dia caíram em prejuízo, e a queda atordoou nossos propósitos e adoeceu nosso sentido. Parece ser tão audível os gritos ouvidos que não há nada por nós produzido que não venha a ser outro lixo se não houver o que redime, redimindo. Enquanto o Criador fez tudo aprazido, nós, os quedantes, estruturamos e mantemos desnecessariedades que nutrem o enturvessimento contínuo. Gostamos é de mediocrizar o anseio pela eternidade em satisfação temporal.

Amamos o lencinho ungido, ou qualquer outro pano de marca; a água de Israel, ou qualquer outra boa bebida; a música de qualidade, o conhecimento, o sexo. Tudo o que nos é aprazível. Necessitamos de todas as desnecessariedades possíveis para satisfazer todas as possibilidades cabíveis.

E os cintilares eternos que todos nós remotamente percebemos, e que nos dá rota da identidade que esquecemos, acabam sendo substituídos pela identidade que queremos como se tivéssemos condições saudáveis para arbitrar sobre os nós mesmos, que sequer plenamente conhecemos.

Se você declara ser cristão há algum tempo muito provavelmente já deve ter ouvido – talvez dito – que nós naturalmente carregamos um anseio pela eternidade. Onde Ele está em nós, amigo?
markinhos.com