um passo pro lado

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Mesmo que a tensão gerada pela incerteza quanto ao futuro - que não vemos - produza em nós calafrios ou até mesmo nos adoeça, embrulhando o estômago só de pensar na possibilidade de não apresentar o resultado que planejamos, sabemos que o caoticismo de tal tensão acaba desenhando e produzindo um perfeito plano de fundo para que o protagonista de nossas vidas seja percebido no seu devido lugar.

Quando as coisas estão seguras demais em si, confortáveis e rigorosamente pontuais, sistematicamente acontecendo conforme o esperado, somos sempre imbuídos e coagidos pelo ego em protagonizar os próximos passos e falas, deixando para o verdadeiro protagonista os buracos em papéis que consideramos secundários do roteiro que ousadamente escrevemos.

Generosamente Deus transforma tudo em “chaos” novamente, confundindo o script que temos, e de forma generosa ele nos indica que não somente a peça por nós encenada, mas todo o complexo teatral de nossas vidas – incluindo o palco, a plateia e a cortina – é deu seu único e extremo domínio. De forma assustadora ele silencia nossa pomposa fala programada, estudada e decorada, para balbuciar ao pé do ouvido as próximas cenas enquanto elemento por elemento, viga por viga, luz por luz, vai tenebrosamente sendo desmontando e realocado. É ele quem coloca os pontos finais de cada ato, mostrando o escandaloso "Eu Sou".

Talvez alguns de vocês, caros irmãos, assim como eu percebe o sorrateiro ponto final de alguns ciclos que vivemos ao longo do ano. Temo por você caso precipitadamente advogue para si qualquer mérito que possa ter te alcançado esse ano que não seja primariamente – também por você – entendido como simples manifestação graciosa e permissiva do protagonista. Temo por você, igualmente, caso o início de mais um parágrafo, ou talvez até um novo folhear, outro capítulo ou livro que será por você declamado, perca a preciosa percepção de que toda a história que será vivida daqui pra frente é nada mais do que um roteiro lindamente escrito e ditado em sussurros por outra pessoa majestosamente maior que você.

Devidamente acalentados (ou não), meu profundo desejo para o próximo ciclo é que você seja extremamente tirado do protagonismo, mesmo que doa, em âmbitos que você ainda nem percebe que são tão tuas apropriações e tão teus senhorios, e aspiro ardilosamente que uma onda de coadjuvantismo se perpetue até os findos anos de sua vida. Não, não estou me referindo a uma desfragmentação pessoal ou profissional, mas sim à coesa e exata devoção pela qual você atribui tudo: que não seja você. Seja o coadjuvante indubitavelmente e propriamente percebido. Somente entendendo que não somos protagonistas é que daremos um passo pro lado para contemplar quem realmente está arrancando suspiros e aplausos da plateia – isso se tiver alguém lá. Esses são meus mais profundos desejos para nós nessa nova etapa.

Quero agradecer a oportunidade que tive de compartilhar algumas falas com vocês durante esse ano, às quartas, e dizer que foi privilégio municia-los de alguma forma.

Nos trombamos no próximo ato.
markinhos.com