delicado momento

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Precisamos reconhecer: o quadro político no Brasil nunca esteve verdadeiramente despido das manchas da corrupção. Os evidentes e noticiados indícios de que ela sempre existiu nos gabinetes partidários espalhados pelo Brasil nunca de fato nos impressionaram e sequer nos assustam, talvez por acharmos normal – quase harmoniosa – a relação entre política e corrupção. Nos últimos dias, porém, o mofo da corruptela de nossos representantes – eleitos democraticamente – começou a nos incomodar. Vimos acontecer no último dia 13 a maior manifestação política da história do nosso país reunindo um número de pessoas que ultrapassou o plural de milhão, realizado em aproximadamente 240 cidades brasileiras, num coletivo pedido para que a presidente deixasse seu ofício.

Não sei se tenho orgulho ou tristeza diante desse registro histórico, pois o mar de pessoas vestidas com camisetas não originais da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que objetivavam evidenciar o mínimo de patriotismo revela a vistas grossas dois graves problemas enquanto nação: hipocrisia e indigência social - no tangente a identidade. A primeira se explica pelas camisetas falsificadas que mostram o quão corrupto é o brasileiro, pondo em dúvida a idoneidade de suas indignações contra a corrupção. Hipocrisia. A segunda, indigência social, é explicada pelo depósito de todo o âmago patriótico num time desportivo. Afinal, o Brasil é o país do futebol. Os que não vestiam camisetas da seleção ostentavam as cores verde e amarela, porém nem estas escapam da historicidade aquém de uma nação, tampouco podem indicar patriotismo uma vez que o verde e amarelo só é pintado em nossa bandeira por conta das cores dos brasões de famílias portuguesas na época em que colonizaram o Brasil. Ou seja, originalmente nem o verde e o amarelo significam de fato nossas matas e riquezas.

Diante de tais coisas que esgueiram-se na história do nosso país, certamente a falta de identidade enquanto povo alarga o complicado cenário que estamos, diminuindo o zoom do pontual problema político para o profundo problema que carregamos por mais de 500 anos enquanto nação brasileira. A falta de identidade ladrilha os caminhos da corrupção generalizada. O esboço desse breve perscrutar social do nosso país, já amplamente conhecido pelos sociólogos, exclui a mínima hipótese de um não posicionamento corajoso e imediato, que somente é aumentado diante do conhecimento de que além de filhos duma mesma pátria somos, em Cristo, filhos do mesmo Deus.

Indiscutivelmente devemos nos esforçar em oração, para que alinhemos nossas vontades e nossas práticas àquelas requeridas por um Deus que zela por justiça numa mensagem intrínseca de identidade. A oração não só motiva as mais sinceras e justas ações, como também resgata a identidade diante da indigência espalhada entre um povo a deriva de si mesmo. A oração é basilar, pois sem um condicionamento que nos torne realmente cientes da existência de um Deus que, em sua soberania, está além dum cenário político-social continuaremos a mercê de nós mesmos.

Quando entendemos isso, nosso padrão moral de conduta é reorganizado de forma processual e gradativa, até que nós mesmos não toleremos o mínimo indício de corrupção, e também deixemos de praticar o não impopular "jeitinho brasileiro". A mudança começa a ser visceral, do micro para o macro.

Somente dessa forma poderemos efetivamente viver no agora o Reino já iniciado por Cristo, e num cenário onde o crescimento do cristianismo protestante não reflete mudança de padrão moral, social ou político da nossa nação, talvez consigamos entender que o anúncio do evangelho deve saltar do medíocre para o minimamente aceitável. Já passou da hora do evangelho de fato deixar de ser ouvido apenas por microfones e caixas de som para ser ouvido no modo inconfundível da prática daqueles que integralmente professam Jesus.
markinhos.com