falta

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A falta é presunçosa: pressupõe incompletude àqueles que a sentem. É como se metade do corpo estivesse deitado na junção entre passado e o futuro - não sendo este o espaço do presente - e a outra metade se esgueirasse no presente sem condição alguma de sobreviver inteiramente ali, desejando sair. Quando se sente falta de algo certamente o presente não está sendo suficientemente satisfatório, talvez até invivível. Por isso sentir falta é querer aquilo que um dia foi no lugar do que ainda será. E se não ajustamos de forma coerente, nutrir isso torna-se perigoso.

Isso porque a compulsão desmedida por aquilo que falta indicia atenuantes ainda maiores - além da insatisfação com o presente. Sem dúvida nenhuma o desespero desequilibrado com o sentimento de falta compromete a relação saudável com o passado e com o futuro, justamente pelo presente sair da fórmula temporal, uma vez que a completude só seria alcançada com aquilo que foi e não mais com o que de fato é. O pedido para ser - no agora - não existe mais, e apenas o saudoso apelo ao que um dia foi existe e pode ocupar os espaços vagos.

O poeta Davi nos ensina a resolver o dilema. Ainda que o sentimento da falta não seja incomum aos que estão sendo completos em Cristo, aos que estão caminhando para ser - segundo seu exemplo - inteiros, devemos sempre meditar no que o pequeno pastor nos disse. No vigésimo terceiro amontoado de versos que compõe o livro de Salmos, ele já indicou que se de fato Deus é nosso pastor não nos falta mais nada.

Ter Jesus Cristo como invólucro do falível ser que ainda somos é comprometer-se em mantê-lo como o bem que nutre nossa completa satisfação. Tê-lo como pastor é entendê-lo como tudo o que é necessário. É não sentir falta de mais nada.
markinhos.com