roteiro contemporaneo

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Ele acorda um pouco mais confuso do que quando foi dormir, e isso se repete diariamente. Nitidamente ele perdeu um pouco da percepção que envolve a caminhada não literal em que todos da sua idade também trilham. É algo comum essa falta de prefácio do roteiro proposto. Não é raro perceber uma insegurança generalizada diante dum mundo que perdeu a noção de velocidade e gira mais rápido que o necessário. Até o presente anda se disfarçando de futuro exigente por mais e mais mudanças do que de fato teria luxo de suprir.

Mas é preciso suportar a velocidade sem poder enjoar, pois existe a latente necessidade de acelerar, a necessidade de produzir cada vez mais descartáveis. Que se descarte até de si mesmo, não importa, a prioridade é que a artimanhosa engrenagem lucrativa possa manter-se engrenando – mesmo que no engano dos rótulos com datas de validade que tentam dar valor a tudo.

Nessa rapidez, não perder a noção do essencial é tarefa que exige disciplina. É fácil ceder a corrupção dos princípios que se embaçam em cada respirada no espelho. Deixar o supérfluo estagne em seu devido segundo lugar diante dos conceitos de prioridades volúveis, com seus discursos persuasivos de agradabilidade momentânea e pessoal, é custoso. Volta e meia o que se têm ou o que se quer ter ocupa o lugar do que se é e do que deveria ser almejado em ser. Constantemente a ideia de aceitação social faz suas exigências com padrões mais estéticos/objetificados/comprados que éticos.

Estando ao lado de quem ainda caminha almejando de fato passos mais firmes e sensatos, o solo ainda parece rachado, e o receio da caminhada ser cadenciada por tropeços acaba pedindo para que os olhos saiam do horizonte ardentemente lembrado e almejado. Está em terreno ainda não mapeado, o que instiga virar-se para os lados buscando nos lodos outro norte. Mas este não existe. Permanecer na rota e no mesmo rumo que tinha na partida começa a pedir certo desvincilho de bagagem que achava que daria segurança.
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A verdade é que sempre antes das viagens botamos coisas inúteis em nossas malas – éramos inocentes demais para entender a simplicidade de levar o que não se pode ser tomado, e apenas.

Se corremos a corrida proposta, mesmo que confusos, devemos permitir totalmente que o vento derrube as convicções tão grudadas e amarradas em nós. Em nós que podem ser desfeitos, em nós que não são cegos. Ainda vemos. Mesmo com olhos cerrados e cerceados pela angústia. Ainda vemos. Nós desfeitos.
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Então ele vai dormir um pouco mais sem fuso do que quando acordou.
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