folhinhas

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Essa é uma história que aconteceu de verdade com uma amiga, e eu tomei a liberdade para adornar ela nisso que você vai ler aqui. Tenha um lindo dia, com céu azul e cheirinho de eucaliptos. :)

O céu estava azulzinho, e por mais que nenhum algodão-doce branco estivesse se arrastando lentamente nele continuava sendo uma visão extremamente linda. A única cor que se via olhando para cima se desfazia num degradê manso, combinando com a suave brisa que em sua dança acabava trombando com a pele, dando uma ligeira sensação de amanhecer.

O relógio mais uma vez havia deixado certa folga entre os dois ponteiros para que alguma coisa pudesse ser feita pela menina, antes deles pontualmente marcarem os primeiros compromissos dela em sua rotina. E não foi preciso nem muito planejamento para que passos a esmo fossem dados ao redor do colégio na composição do pequeno prólogo.

Aquela instituição era conhecida por agregar a gentileza ambiental com a perspicácia acadêmica, e certamente uma caminhada arborizava os pensamentos. Porém naquele dia o palco verde da rotina estava escondendo a travessura que havia planejado para a menina tão desapercebida, e até os pequenos insetos que moravam por ali cochichavam entre sorrisos como se já soubessem o que aquela manhã ensinaria.

Ela caminhou até encontrar algumas folhas de eucaliptos no chão que não estavam nem tão verdes e nem tão secas, mas perfeitamente conscientes de que eram folhas de eucaliptos. A menina melindrosamente fez prova disso, embora ela até hoje não admita que estava testando as folhinhas, para ver se realmente elas eram o que se evidenciava.

De forma muito natural ela trouxe as folhas para perto de seu rosto enquanto esmagava as folhas ente os seus dedos, e isso lhe agradou. Ela pôde sentir de olhos fechados, e sentiria mesmo que estivesse de costas, que as folhinhas nem tão verdes e nem tão secas tinham de fato conservado seu propósito de serem originalmente folhas de eucaliptos. O exalar do cheiro inquestionavelmente revelou sua característica essência aguçada de pungência. O vento tinha também sido irrepreensível no seu papel, ventando a intensidade perfeita que direcionasse o aroma da folhinha direto para as narinas da menina.

A folhinha até então teve certo sentimento diferente com o vento, pois na terra ela não tinha plenamente entendido um dos últimos contatos que tiveram. Parecia que lá no alto era mais claro, e ali em baixo precisava de fé. Há não muito tempo a justiça do eterno amigo a levou a abandonar sua casa, a planta de eucaliptos. E ela desceu, lá do alto, pra se entregar pra morte. Mas a folhinha lembrava disso apenas pela fé, e por isso ficou bastante desconcertada com o vento, achando-se abandonada. Mas sabia, lá no fundo, que isso de alguma forma contribuiria para o propósito tão mais nobre que latejava em sua essência. A morte tem esses irônicos paradoxos. Mas a história da folhinha é pra outro momento.

O que aconteceu é que o cheiro daquela folhinha coagiu a menina de tal forma que ela ficou no mínimo intrigada. Num esmiuçado sorriso entre o erguer de olhos para a copa do eucaliptos e para o chão, ela percebeu a alguns passos um galho com várias folhinhas de eucaliptos igualmente nem tão verdes e nem tão secas mas perfeitamente conscientes. Sem pensar três vezes ela levou o galho de eucaliptos para a sala de aula, e instruiu cada um dos seus colegas a fazer prova de cada uma das folhinhas (embora ela até hoje não admita que estava testando elas em seu propósito). Todas foram firmes, e exalaram a mais penetrante fragrância de propósito em serem todas folhas de eucaliptos, inundando todas as salas cheias de vida e vazias de cheiros. Não se podia sentir outro aroma senão o que a menina havia levado consigo. O vento lá fora uivava de felicidade, e as árvores dançavam de alegria. Os insetos corriam efusivos de empolgação, levando as boas novas, e a natureza exultava! A árvore de eucaliptos quase cansou suas mandíbulas de tantos sorrisos distribuídos para corresponder as intermináveis congratulações que estava recebendo, e todas as suas folhinhas foram elogiadas. No alvoroço todo, algumas até se lançaram ao chão, em memória da folhinha que um dia também desceu. Elas tiveram o mesmo sentimento de entrega total, dançaram com o vento, guardaram a essência. Era ali que estava o propósito.

Tudo não durou mais que algumas horas, e de alguma forma a menina não era mais a mesma. O aprendizado, tão grande aprendizado, que excedeu ela mesma, que excedeu os colegas de sua sala, que excedeu a própria sala, e as salas vizinhas, e que excedeu todas as folhinhas finalmente descansou no mesmo lugar onde as certezas mais profundas da vida tomam um café bem gostoso feito com moedor antigo. Ali, o aprendizado e as certezas mais profundas da vida comungam a mesma fé a serviço do Criador.

Ah, o Criador e sua singular didática!
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