colete reflexivo

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Ele não gostava muito de parar com o carro em vagas na rua monitoradas por aquelas pessoas que usam coletes com fitas reflexivas, mas não haveria outro jeito de pagar suas contas se não balizar ali mesmo.

Não demorou muito para que pagasse tudo, e na volta ensaiou o discurso do "poxa amigo, não vou ter como te ajudar" que sempre diz em vez da soante e mal educada indisposição para dar o já escasso dinheiro.

Para variar um pouco, disse ao final "... voltei mais pobre do que eu fui, cara" num subterfúgio social com uma pitada de humor. Ligeiramente o senhor de colete que ouviu isso o olhou de cima a baixo, repreendendo a frase:

"Voltou mais pobre nada, porque dinheiro não é a nossa riqueza! Temos saúde, temos o que vestir e podemos andar, somos os mais ricos que podemos!".

O menino cerrou seus lábios e desacelerou sua pressa enquanto testemunhava o senhor que se antecipava a ele em abrir a porta do carro. Mesmo o senhor sabendo que não seria pago, agiu com a mais fina classe. Os olhos do menino ficariam menos secos alguns minutos depois, mas naquele momento o que acontecia era o honroso respeito àquilo que o senhor continuava a dizer.

"Sabe, rapazinho, minha mãe me ensinou uma oração pra Deus. 'Me dê um pão por dia e seja feita a tua vontade, amém!" - continuou o senhor, agora fechando a porta para o menino - "E a vontade tem que ser a dele, porque a nossa, rapazinho, é complicada".

"É a pura verdade, né, nossa vontade é zoada mesmo" completou o menino antes de abaixar o vidro, pôr o cinto e ligar o carro ainda fitando nos olhos o senhor que tinha apenas dois dentes na boca.

"Não, a gente não sabe como pedir. Pedimos coisas pra gente só..." continuou o senhor, em claro tom de ensino.

Antes de sair, ainda enquanto ele me ajudava a tirar o carro da vaga e me aconselhava a não esquecer de acender os faróis do carro pra não levar multa, desejei àquele senhor um bom trabalho e que ele ficasse com Deus.

Mas acho que naquele exato momento Deus decidiu ficar comigo também, mostrando como a mesquinharia das minhas atitudes é facilmente desestabilizada quando ela é exposta aos dons que Ele mesmo dá, de forma a compartilhar com quem Ele mesmo quer e da maneira que deseja.

Não contive as lágrimas diante da simplicidade e da sabedoria que pode existir em pessoas que tão grosseiramente digo que são "apenas mais alguém de colete com fitas reflexivas".

Na verdade o que gera o desconforto social é puramente o meu orgulho! Ora ora, ele ainda está por aqui, quem diria?! Aquele que cuido tanto para que não exista nas minhas práticas ainda aparece querendo fazer inexistir as pessoas por trás dos coletes, as generalizando sem o crivo do olhar de Cristo que eu, professando Ele como meu Senhor, deveria ter.

Não esqueça de ser a luz que deveríamos ser, ou então o luzeiro te dará uma doce surra de te deixar chorando no carro por aí.
markinhos.com