coragem

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Para ser cristão, digo do autêntico, você irrevogavelmente precisa ser corajoso. Afinal, a fé é o nível avançado da mais alta convicção. Não é suposição rasa e tampouco é satisfeita nos modelos imanentes de confiança. A fé do cristão autêntico tem sua porção transcendental bem característica, muito além da pura experiência pessoal possível. Embora seja totalmente enunciada pela razão não é capaz de ser contentada por ela. Apenas Cristo é capaz de nos bastar em correspondência à fé que emerge em nós nos termos mais profundos das nossas afetividades e ponderações. E quando Ele decide envolver-se, somos cooptados pelo inimaginável e ainda então invivido amor. Quem pode conhecer a mente do Senhor ou se tornar seu conselheiro?

Dar os passos nesse cenário certamente amputa quaisquer muletas onde normalmente descansamos nossas frustrações não resolvidas. A agonia de ser descartado irrefutavelmente do controle de tudo pode ser mortífera. E não acredito que essa observável característica seja desproposital ou simples coincidência. A abstinência de si mesmo promovida pela mensagem do evangelho aos autênticos cristãos gera os mais variados desconfortos que se pode imaginar. O erro até então enxergado há quilômetros de distância passa a ser medido em quadras, depois em metros, em centímetros até que somos desnudados em nossa própria insensatez e hipocrisia, e esse gosto não é nada doce aos nossos séquitos sentidos imaturos.

E nessa caminhada de fé, em meio ao caos da descoberta de quem realmente nunca deveríamos ter sido, cheio de ecos indecifráveis, começamos a contar os ruídos e marcar o ritmo até que tudo seja mansamente padronizado e sistêmico. A calma que impossivelmente viria de nós nos encontra em roupas de paz. Então as ondas descontroladas passam a escutar a frequência duma voz calma e mansa que novamente ordena, como no princípio. Quando as bagunças são expostas no mural das nossas mais nítidas impressões, elas deixam de ser acobertadas pela desculpa e podem então serem ajustadas e carregadas em justiça.

E a justiça toda ironicamente não atinge os injustos, mas é imputada apenas no justo, e através dele somos justificados.

O incômodo que o imerecimento nos causa esbraveja nossa mais escondida soberba e nosso mais acarinhado orgulho. Os desfaz. Nossas mais valiosas moedas recebem o aval de pó, e enfeitam o chão como a poeira enfeita as ruas. Vestígios de graça começam a ser mais palatáveis e notavelmente vividos em cada segundo de vida, e se continuarmos minimamente honestos com tudo eis que o novo simplesmente acontece.

Então a perda é ganho, a morte é vida, o sofrer é paz, a escuridão é clara, e o eu é d'Ele.

Haja coragem.
markinhos.com