isaias 55

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A voz enrouquecida expunha a cansada idade ainda aprisionada no corpo que lutava para manter-se são. Nem o certo e vindouro martírio, contudo, poderia afanar a alegria que tinha o interlocutor quando dizia em alto e bom som aquilo que seus estudos e Aquele testificavam em seu coração.

Os olhos envoltos por olheiras ainda observavam mercadores de água e alimentos anunciando suas mais preciosas mercadorias. Mas algo ainda era injusto: apenas quem tivesse dinheiro saciaria a sede, e apenas quem pudesse comprar levaria comida. Ao chão, miseráveis esticavam suas mãos suplicando por migalhas, gotas de água e esmolas, até que a sequidão de seus lábios sepultasse lentamente seus corpos já necrosados.

Os trabalhos eram escassos e traziam maior insatisfação do que o mendigar. Viver era objetivo nato, animalesco, instintivo e o único objeto buscado. A impiedade era impudicícia e pintava as ruas de toda a cidade. Ainda haviam, embora poucos, aqueles que margeavam horizontes mais puros atentos às promessas que haviam recebido de seus antepassados.

Estes olhavam para o leste quando do oeste soprava toda a imundícia que nutria os corações e mentes dos perversos. Olhavam para o Sul quando do norte vinha toda a prevaricação que sustentava os subversivos. Olhavam para o alto quando os outros olhares eram usualmente para si mesmos.

Porém só conseguiam enxergar algo que não tinha beleza que pudesse causar afeição ou desejo, e não entendiam. Desviavam o olhar buscando consolo e só conseguiam enxergar algo enfermo e esmagado, opresso e ferido. Um outro tão semelhante a eles, sem qualquer majestade, igualmente experimentado em sofrimento. Apenas mais uma planta recente e fraca nascida dum solo infertilizado. Só enxergavam esse algo maldito, e o rejeitaram.

Pela quinquagésima quinta vez o interlocutor levanta-se abruptamente, entre pigarros, fazendo com que sua voz fosse novamente ecoada entre os mercadores e os mendigos. Por vários instantes cessou o comércio, os pedidos e a movimentação, todos assombrados diante do que fora dito.

"Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e, vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo. Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz? Escutem, escutem-me, e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará na mais fina refeição. Deem ouvidos e venham a mim; ouçam-me, para que sua alma viva. Farei uma aliança eterna com vocês, minha fidelidade prometida a Davi."

A sequidão passou a enxugar a garganta dos mercadores enquanto os necessitados das mãos esticadas salivavam e lacrimejavam. A esperança chacoalhava os corações dos desanimados e tremulejava as mãos dos escribas que se reuniam para escrever rapidamente o que ouviam.

"Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos", declara o Senhor. "Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos. Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: Ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei."
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